Urgente! Cuidar de nós: um hábito a recuperar.

Por Gonçalo Duque Plaza,
Psicólogo clínico, Coach e Hipnoterapeuta

Com todos os avanços que o século XXI nos traz, em termos de conhecimento sobre as mais diversas matérias, este avanço traz também o seu reverso da medalha: vivemos hoje numa sociedade hiperestimulada que não sabe como parar¸ que vive a um ritmo alucinante, numa corrida sem fim à vista. E, pior, que nos leva frequentemente a duvidar do nosso direito a parar, olhando com estupefação (com crítica?) para quem ousa quebrar os ritmos frenéticos habituais.

Somos inundados de compromissos, da constante necessidade de atualização das nossas competências, da obrigação de cumprirmos metas, da necessidade de acumularmos mais e mais conhecimento, resultando tudo isto num excesso de estímulos aos quais temos de dar toda a nossa atenção: somos levados a absorver um manancial de informação, a aprender a reagir a essa informação, a descobrir como integrá-la e utilizá-la no nosso dia-a-dia. Somos amplamente levados a acreditar que só assim – acumulando conhecimento e produzindo sem parar – é que nos tornaremos pessoas capazes e merecedoras de sucesso e proveitos. Criamos a ilusão de que apenas seremos felizes seguindo um determinado estilo de vida – temos receio de olhar para nós próprios, não ousando duvidar dos percursos que escolhemos.

foto por Gustavo Valente

É claro que todos temos objetivos que desejamos alcançar, todos temos determinadas ambições na vida, todos temos responsabilidades para cumprir. Sabemos que estes objetivos e ambições dependem em larga medida de nós e do esforço e foco que colocamos nos vários papéis e tarefas que vamos vivenciando, isto é, que devemos apenas contar connosco para alcançar os nossos propósitos. E assim vamos, de mês em mês, de ano em ano, cumprindo etapas e procurando atingir metas, ininterruptamente.

No meio desta azáfama tendemos a esquecer um aspeto crucial: não só o cansaço provocado por essa hiperestimulação nos sobrecarrega (causando tensão e ansiedade), como nos fragiliza física e intelectualmente. Estarmos em permanente atividade e estado de alerta é penoso e desgastante. Organicamente podemos até ficar mais propensos a doenças. Psicologicamente ficamos mais vulneráveis, com menos acesso aos nossos recursos internos, que tão necessários são para enfrentarmos as exigências e as agressões do dia-a-dia.

No meio de tudo isto, será que estamos a ter em consideração as nossas necessidades, os nossos verdadeiros desejos, os nossos sentimentos? Quando é nos autorizamos a parar um pouco? Quando é que escolhemos pensar em nós, naquilo que mais nos faz sentido? Damo-nos o direito de questionar as nossas escolhas e ponderar outras possibilidades, outros cenários? Lutamos pelos nossos desejos ou cumprimos tão-somente os objetivos de terceiros, da dita sociedade? Saberemos arranjar forma de aliviar um pouco o peso que colocamos em cima dos ombros, fruto dos vários papéis que assumimos? Poderemos ser menos exigentes connosco, mais compreensivos? Conseguiremos aceitar os nossos erros e fragilidades? Será que estas questões aqui enunciadas podem ser o primeiro passo que vai dar neste processo de tomar conta de si?

Sabermos dar ouvidos a nós próprios pode ser, então, o primeiro passo. Seguem-se outros passos que poderão incluir estratégias como:

1. Escolha um canto em casa que seja só seu. Rodeie-se de objetos que lhe transmitem conforto. Determine um período diário para estar nesse espaço, sem ser incomodado, realizando uma atividade que o relaxa (é proibido utilizar o telemóvel). Torne este momento num hábito.

2. Uma vez por mês programe uma atividade diferente com os seus amigos. A sua mente precisa de reforço social para ativar substâncias promotoras de bem-estar e tranquilidade.

3. Escreva numa lista cinco atividades que lhe dão prazer (podem ser coisas tão simples como ler, ir ao cinema, ir ao teatro, conhecer um restaurante novo, caminhar na natureza). Presenteie-se com a realização dessas cinco atividades durante todos os meses de 2020. Estará assim a passar ao seu cérebro uma mensagem de amor-próprio e de autoestima.

4. Defina três coisas que o ajudam a acalmar. Escreva-as numa folha e, ao lado de cada uma, detalhe aquilo que tem de fazer para executar essa ação calmante. Sempre que se sentir ansioso, basta recorrer a essa folha de papel e colocar em prática uma das opções antes definidas.

5. Inicie uma atividade de lazer que nunca tenha experimentado (e.g., um novo desporto, dançar, escrever, desenhar, pintar, um idioma estrangeiro, uma arte marcial).

6. Faça uma “playlist” com músicas que o animam. Dê-lhe o nome de “Energia Top”. A música é um poderoso instrumento ao serviço do nosso cérebro, atingindo componentes diretamente responsáveis pela regulação das nossas emoções.

O desafio é tão simples, afinal: olhe por si, tome tempo para cuidar de si. Só temos um corpo e uma mente. Respeite-se a si próprio!

Gonçalo Duque Plaza
Psicólogo clínico
gdplaza.psicologo@gmail.com
instagram: goncaloduqueplaza

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