Quando a depressão espreita!

Por Gonçalo Duque Plaza,
Psicólogo clínico, Coach e Hipnoterapeuta

Quando passamos por algo que nos causa dor e tristeza, que nos deixa uma marca profunda, podemos vir a sentir uma imensa necessidade de afastamento, de isolamento dos outros, de ficarmos fechados no nosso porto seguro, na nossa concha.

Como se sentíssemos, de alguma forma, que nos mantendo fechados nesse porto seguro ficaríamos como que protegidos de mais agressões que venham do mundo exterior.

Todo e qualquer evento perturbador, pela sua magnitude e impacto, pode acabar por fazer com que nos sintamos abalados por uma onda de tristeza que nos traz, tantas vezes, uma sensação de dificuldade em respirar e, inclusive, dificuldade em perceber como sair de lá. Estes acontecimentos esgotam as nossas fontes de energia, deturpam e desfocam o nosso sentido da vida e de tantas daquelas pequenas coisas que antes nos davam alegria e satisfação.

De um momento para o outro parece que transportamos o mundo inteiro às nossas costas e que qualquer pequeno movimento que tenhamos de fazer, físico ou intelectual, se torna terrivelmente penoso.

Paradoxalmente, é nestes momentos de maior desejo de recolha e de isolamento que a procura de proximidade com outros é absolutamente determinante.

Estes são alguns dos sinais que alertam para a possibilidade de a depressão estar à espreita. E é logo aqui, neste momento, que ela tem de ser enfrentada. Procurar rodear-se de pessoas que lhe são queridas, isto é, evitando o tal afastamento e isolamento, significa que está a dar o primeiro passo em direção ao seu bem-estar.

Partilhar a sua dor e, ao mesmo tempo, receber e compreender as experiências e perspetivas dos outros, são ingredientes importantes que poderão trazer a informação de que necessita para apaziguar as emoções perturbadoras, bem como maior clareza mental e resgate da energia e da força interiores que pareciam ter-se extinguido.

Deixe-me acrescentar aqui um outro aspecto: quando falamos de dor, estamos a falar de perdas e, ao falar de perdas, é essencial que possamos aprender a fazer o luto dessas perdas.

O luto é algo que deve ser feito relativamente a todas as situações que nos causam dor e que traduzem uma perda. Esta perda pode assumir uma panóplia de formas, todas elas cheias de significado, como sejam:

  • A morte de alguém que nos era querido;
  • A quebra de uma amizade significativa;
  • O final de um relacionamento amoroso;
  • O final de uma carreira de trabalho;
  • A saída inesperada de um emprego;
  • O desapontamento que nos tenha sido causado por alguém muito próximo;
  • A vivência de uma doença crónica que nos faz sentir diferentes dos demais;
  • A descoberta de uma doença oncológica, com o impacto que traduz tanto para a pessoa doente como para os seus familiares e cuidadores;
  • A alteração forçada de um determinado hábito ou comportamento, que nos deixa a vida virada do avesso.

Usualmente o luto segue um conjunto de cinco fases que se podem resumir no seguinte:

  • Negação: num momento inicial a pessoa tem extrema dificuldade em aceitar a perda e recusa-se a acreditar naquilo que lhe aconteceu; a pessoa tem consciência do que aconteceu mas não permite que as emoções se manifestem; 
  • Revolta: a pessoa ainda não aceitou a perda e coloca questões como “porquê a mim?” ou “o que é que podia ter feito de diferente?”; Pode haver tendência a responsabilizar outras pessoas pela perda sentida;
  • Negociação: a perda ainda não é considerada como irrecuperável; a pessoa tende a procurar alternativas para voltar à normalidade;
  • Depressão: a pessoa ganha uma consciência mais claro daquilo que lhe aconteceu; surgem sentimentos de perda de projetos, sonhos, necessidade de mudança; pode aqui surgir alguma raiva contra si próprio, pela constatação da impotência face à situação;
  • Aceitação: é a fase final do luto, na qual a pessoa compreende e aceita o que aconteceu; constrói um novo olhar sobre a situação e encontra a tranquilidade possível.

O trabalho sobre o luto destas perdas inicia-se quando começamos a transformar a dor e a tristeza e quando começamos a “dar nomes às coisas” (lembremo-nos de todas aquelas vezes em que a dificuldade de dar um nome específico ao que nos perturba ainda torna esse evento mais pesado ou assustador).

O repto é este: estando a depressão à espreita, não se isole. Aproxime-se dos demais ou, se sentir poucas forças, deixe simplesmente que os que lhe são queridos se aproximem. Permita-se realizar um trabalho de reflexão, de ganho de consciência do grau de dor que a perda traduz, mas também da raiva que transporta e do peso que essa dor e raiva representa na sua vida, no seu dia-a-dia e nos seus comportamentos. Todo este processo acarreta, necessariamente, o “levantamento da poeira” que teimamos em colocar debaixo do tapete, mas lembre-se: tem na sua mão o controlo da forma como se posiciona perante os acontecimentos; está na sua mão o poder de recuperar e restaurar o seu sentido do gosto pela vida.

Gonçalo Duque Plaza
Psicólogo clínico
gdplaza.psicologo@gmail.com
instagram: goncaloduqueplaza

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