Yoga: solução para patologias emocionais?

Por Jean-Pierre de Oliveira 
teacher | Functional Hatha & Yin Yoga; 
Founder | YogaSpirit Studio Lisboa;

Já se sentiu incapaz de funcionar até nas tarefas mais rotineiras? Então este texto é para si. E o Yoga também. De um lado temos Freud, Carl Jung, Philippe Pinel! Do outro, B.K.S. Iyengar, Swami Vivekanana, Patanjali. De um lado, a Psicologia. Do outro, o Yoga. Se procura uma vida melhor, em vez de olhar para estas duas disciplinas como filosofias sem pontos de interseção, talvez seja mais indicado derrubar a barreira que as separa.

Como professor de Yoga, é inevitável não me debruçar sobre o assunto para esclarecer os meus alunos nas questões sobre uma vida livre de depressões, desequilíbrios e crises. E por ter de lidar frequentemente com alunos diretamente afetados pelo problema, fui naturalmente desenvolvendo um trabalho mais aprofundado sobre os benefícios do Yoga nas patologias emocionais. Quer uma dica? Está tudo na sua mente…

Embora o vocabulário seja diferente, os conceitos são os mesmos nas duas disciplinas. Oriente/Ocidente: kleshas/desequilíbrios; vrittis/patologias emocionais, sankalpa/ técnica da autossugestão. Sim, as terminologias são distintas, mas o assunto é o mesmo: a doença. Se a ideia é lançar as bases para uma melhor compreensão do ser humano e da sua mente, o primeiro passo é desconstruir estas dicotomias. Felizmente, começa a haver um estreitamento entre Oriente e Ocidente, porque entre a deterioração da sua saúde e o seu bem-estar pode estar apenas o seu estado de espírito. Ou melhor, o seu controlo sobre o estado de espírito. Melhor ainda: a consciência desse mesmo controlo. E estas são as ferramentas que o Yoga nos traz através da metodologia prática com efeitos imediatos.

foto por Gustavo Valente

PATOLOGIAS E AS SUAS SOMATIZAÇÕES
Mas vamos por partes. Primeiro, o problema: as patologias emocionais, reações aos desequilíbrios das nossas emoções. A vida humana acontece numa dinâmica constante entre equilíbrio e desequilíbrio. As emoções são reações, automáticas e inconscientes, que projetam para o exterior o reflexo do que estamos a sentir. No entanto, é preciso distinguir entre sentimentos e emoções. Estas últimas, mais problemáticas e superficiais, tendem a ser igualmente mais intensas e caprichosas.

. Pensamento: Processo mental.
. Emoção: Experiência subjetiva influenciada por estímulos ambientais, resul- tando de processos mentais similares e repetidos.
. Sentimento: Sensação prolongada do sentir de vivências acumuladas. Um pensamento repeti- do cria uma emoção; uma sucessão de emoções cria um sentimento; um sentimento é uma sensação que perdura.

Relacionamentos, vida profissional, vida social, estabilidade (ou instabilidade) económica, tudo entra na equação que mantém as nossas emoções equilibradas ou não. Um desequilíbrio maior resultará numa qualquer patologia emocional. Trocando por miúdos: crises de ansiedade, fobias, perturbações obsessivas/compulsivas.

Por sua vez, estas patologias poderão despoletar uma ou várias manifestações (somatizações orgânicas): alergias, asma, urticária, insónias, sensação de fadiga, diminuição das capacidades do sistema imunitário, dor e até alterações cardiovasculares e respiratórias. E se achava que as consequências ficariam por aqui, some-lhe outras duas: disfuncionalidade relacional e dificuldade na vivência familiar. Reconhece o padrão? Agora só tem de o desconstruir.

foto por Gustavo Valente

FINALMENTE, O YOGA!
Em conversa com vários yogis, há uma frase que parece repetir-se ipsis verbis: “O Yoga mudou a minha vida”. Quando o dizem, a maioria das pessoas não está a referir-se aos benefícios desta prática para o corpo. Estão a referir-se sobretudo aos benefícios para a mente.

Para compreender o modo como a prática de Yoga afeta a mente, vejamos o que nos ensina os Yoga Sutras de Patanjali sobre os cinco estados da mente. Ela pode ser/estar inquieta, iludida, distraída, concentrada e, finalmente,
controlada.

O QUE SÃO OS YOGA SUTRAS?
São o texto fulcral da escola (darshana) de filosofia indiana ortodoxa chamada Yoga. Pouco se sabe sobre Patanjali, o que tem gerado alguma controvérsia acerca da data em que os Yoga Sutras foram compilados. Con- tudo, Patanjali é considerado o compilador ou sistematizador da tradição de Yoga, dando-lhe a forma clássica que hoje conhecemos.

Sendo uma disciplina espiritual, o Yoga visa o controlo das atividades psicofísicas para realizarmos a nossa verdadeira natureza e atingirmos o objetivo de libertação ou moksha. Os Yoga Sutras definem quais são essas técnicas através de aforismos concisos.

foto por Gustavo Valente

OS 5 TIPOS DE MENTE DE PATANJALI
Patanjali define o Yoga (no seu Yoga Sutra I.2) como chitta-vritti-nirodha (a cessação das flutuações da mente). O comentário de Vyasa sobre o primeiro sutra no Samadhi-pada explica que chitta (a substância ou princípio de pensamento) tem cinco estágios:

1. Mente inquieta, mente ignorante: Ksipta;
2. Mente turva. Estupefacta/sem claridade e muito liga- da a assuntos específicos: Mudha;
3. Mente distraída. Mente entre claridade e agitação: Vi- ksipta;
4. Mente focada: Ekagra;
5. Mente calma, mente contida: Niruddha;

Os três primeiros estágios (Ksipta, Mudha e Viksipta) não são classificados como modos de Yoga, mas os próximos dois estágios (Ekagra e Niruddha) são classificados como sendo Yoga. Os Yoga Sutras são métodos para todos os tipos de mente e necessidades. Os tipos de práticas deverão ser diferentes para cada tipo de mente.

O Samadhi, etapa final do processo de crescimento espiritual conforme descrito nos Yoga Sutras de Patanjali, seria uma mente controlada, isto é, livre de pensamentos e capaz de superar desequilíbrios nas emoções. O caminho para essa mente controlada é o Yoga. Com a sua prática, livramo-nos dos vrittis (pensamentos flutuantes), que nos separam de nós mesmos, e dos erros da mente (ou kleshas).

OS 5 KLESHAS
Avidya é o campo sobre o qual os outros obstáculos podem estar adormecidos (prasupta), atenuados (tanu), interrompidos (vicchinna) ou sustentados (udara). É uma causa da tendência equivocada de identificar o impermanente como permanente e o não-eu como o eu;
Asmita é uma causa da tendência equivocada de identificar o intelecto (buddhi) como pura consciência (purusha);
Raga é uma causa do fracasso em perceber a realidade espiritual do Eu como sendo diferente da realidade material do prakriti;
Dvesha é a tendência de pensar no objeto de dor;
Abhinivesha é um medo instintivo da morte, uma sensação latente de ameaça e perigo. Apego à vida.

foto por Gustavo Valente

No contexto das patologias emocionais, os tratamentos psiquiátricos são a cura em último recurso e o Yoga é um modo de prevenção. E aqui está uma boa razão para dar uso ao seu tapete de Yoga.

Experimente a sequência de autossugestão de Schultz Ou Yoga Nidra.

Relaxamento oncológico de Schultz
Repita cada uma das seguintes frases, o número de vezes que precisar:
1. Estou relaxado;
2. Os meus braços e pernas irradiam calor; 3. A minha respiração está tranquila;
4. O meu coração bate regularmente:
5. Irradio calor;
6. A minha cabeça está livre.

9 passos do Yoga Nidra, como sistematizado por Swami Satyananda:
1. Preparação e relaxamento prévio;
2. Sankalpa: resolução positiva e afirmativa;
3. Rotação da consciência: atenção plena às diferentes partes do corpo;
4. Consciência da respiração;
5. Exploração de sensações opostas: pesado/leve, quente/frio, etc;
6. Chidakasha: expansão da consciência;
7. Visualização: viagem imaginária;
8. Chidakaha e Sankalpa: regresso à consciência do presente;
9. Saída guiada do estado de relaxamento profundo.

Jean-Pierre de Oliveira 
instagram: jpierre_yogaspirit

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