Onde mora a esperança nestes tempos de mudança?

Por Ana Viegas Cruz 
Master Especialista em Sofrologia Caycediana, 
Professora de Yoga, Formadora

– A esperança

“Tudo passa. A única coisa que não muda é a própria mudança em si mesma”, diz Osho. Mas se tudo passa, o que é que realmente permanece? A consciência, as suas capacidades e qualidades, os valores existenciais do ser, o Ser em si mesmo.

Dentro das qualidades do ser, parece-me relevante falar, nestes tempos, de ESPERANÇA.

O Dr. Pierre Guirchoun, no Simpósio de Sofrologia Caycediana em 2010, Barcelona, afirma: “A esperança é uma confiança realista na positividade do futuro (e não uma fé cega, excessiva, utópica ou irrealizável). É uma confiança genuína que se baseia na convicção em ser-se capaz de sair-se bem sucedido dos desafios que a vida lhe apresenta.“

Nesta definição, realça-se a confiança (outra qualidade do ser) em deterimento da expetativa (que aparece em muitos dicionários associada à ESPERANÇA).

Para a Sofrologia, sendo esta uma prática que promove a vivência da Presença e daquilo que é positivo para cada um de nós, ESPERANÇA relaciona-se com o acto de confiar e este está profundamente enraizado no presente.

Confiar aproxima-se da preserverança ou da fé e fortalece a relação do ser humano consigo mesmo, porque acredita em si e nas suas capacidades face ao inesperado.

A expetativa convida-nos a esperar por algo, projeta-nos inevitavelmente para um tempo mais à frente, que poderá nunca acontecer, ou poderá acontecer mas não da forma como esperávamos. Isso fragiliza-nos pois passamos a depender de fatores exteriores a nós mesmos e sujeitamo-nos a viver num possível sofrimento.

Com a Sofrologia descobrimos onde moram os valores que dão sentido à nossa Existência e que nos permitem viver serenamente no meio da mudança.

– A mudança

Uma mudança pressupõe uma alteração de um estado ou situação anterior, para um outro no futuro, por razões inesperadas e incontroláveis, ou por razões planeadas e premeditadas. Mudança é sinónimo de transformação, e esta não tem de ser necessariamente um processo difícil.

Mudança implica sair da zona de conforto, implica ter de lidar com aquilo que ainda não conhecemos. Mas também nos dá a oportunidade de assumirmos uma escolha: dançar com o mundo à nossa volta ou lutar e resistir perante o inevitável.

Se optamos por resistir (alerta para os “control freaks”), arriscamo-nos a cair num estado de profundo desânimo, no qual, pensamos que tudo está perdido, levando-nos à exaustão e a uma situação extrema de desesperança. Neste estado limite, parece que uma luz que se apaga dentro do ser e que não lhe permite sequer ver o amanhã como uma realidade possível de ser vivida.

Se escolhermos dançar, então é necessário termos abertura e aceitarmos o desafio. Mas antes, precisamos descobrir onde moram a flexibilidade, a criatividade, a adaptabilidade, a coragem, a preserverança, a motivação, a ESPERANÇA… Tudo isto existe bem dentro de nós o tempo todo.

Provavelmente não o vemos porque estamos ocupados a viver o futuro, “pré-ocupados”, e angustiados, alimentando o medo e construindo uma vida, muitas vezes, alicerçada na desesperança. Ou então, estamos presos no passado, alimentando apegos e prisões que nos causam rigidez e nos cristalizam no tempo e no espaço que ocupamos.

ESPERANÇA é a arte de esperar, sem expetativa, enquanto se dança. Um paradoxo? Talvez mas dá-nos a oportunidade de podermos continuar a sonhar, sem sermos esmagados pelo vazio da desesperança. Que força criativa, esta, que desafia o futuro sem sairmos do presente!… Abrimos as portas para um tempo mais além, sem dele dependermos para sermos felizes.

– A casa

Se tudo passa e se aquilo que fica é a própria constância da mudança, então façamos as pazes com ela. A vida é movimento, é mudança. Façamos as pazes com a vida. Quando aceitamos a dinâmica própria da vida, compreendemos que nestes tempos de mudança, só nos resta voltar para casa. Essa está sempre enraizada na Presença que é, ela mesma, permanente.

Curiosamente, foi-nos pedido para ficarmos em casa devido ao Coranavírus. Para muitos, ficar em casa foi um tormento, para outros uma libertação. Tem muito a ver com a relação que temos com a nossa existência e co-existência. Como é a nossa vivência interna? Como é ficarmos em casa, dentro de nós? Será que estamos habituados a conviver connosco mesmos? Será que conseguimos realmente alcançar o “fenómeno caracol”? Ou seja, será que conseguimos SER a casa que tanto nos pedem para habitar nestes tempos de confinamento obrigatório? Será que conseguimos fazer do Coronavírus um Coronamigus?

Praticarmos sofrologia convida-nos a um mergulho na profundidade de cada um de nós, a entrarmos em casa, a descobrirmos os seus alicerces, e a reconhecer os valores, as capacidades e qualidades próprios da Consciência que anima cada ser humano.

Que música de fundo se ouve dentro da casa que SOMOS, onde quer que estejamos, neste momento desafiante?

Alguns não podem ficar em casa para cuidar daqueles que mais precisam. Mas mesmo esses vivem o desafio de não perder a ESPERANÇA, de trabalhar a confiança e a fé. Conseguirem acreditar por saberem de forma sentida que de, dentro para fora, irão encontrar em si, e não no outro, o modo de lidar com o desconhecido.

#Vamostodosficarbem… sei que é uma frase que puxa pela ESPERANÇA do coletivo mas não posso falar por todos, muito menos arriscar-me a cair na armadilha da expetativa.

#Estouemcasaeestoubem… sim, o praticante de sofrologia diariamente faz por isso, quando reforça uma existência plena de valores e cheia de sentido. Fica a dica. Ah!… Não percam a ESPERANÇA se não obtiverem resultados imediatos. A sofrologia não se revela logo no primeiro dia. Para uma verdadeira mudança, primeiro é preciso descobrir a ESPERANÇA, depois conquistá-la e, por fim, transformar a existência. Basta confiar no método e praticar. O resto acontece.

Ana Viegas Cruz
Email: sofrologia.pt@gmail.com
Website: www.sofrologia.pt
facebook: sofrologia.pt
Instagram: sofrologiapt

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